
Uma das pizzas mais sensacionais que já comi, da Pizzeria Salvo Francesco & Salvatore: cinco tipos de tomates locais preparados de cinco maneiras diferentes (confit, assado, grelhado, cru, refogado e defumado)
Nápoles é caótica.
Nas infindáveis vielas, automóveis dividem espaço com transeuntes, lambretas, carrinhos de bebê, feiras. Nas ruas, mesmo havendo semáforos e faixas de pedestre, quem define a parada dos carros – com o próprio corpo – é quem atravessa. Nos táxis, velhos, é usual o motorista fumar, “esquecer” de ver o GPS, cobrar a mais e ainda conversar todo simpático durante todo o percurso. As pizzarias mais famosas – e não necessariamente as melhores -, como a Da Michele, possuem filiais não autorizadas com nomes engana turista: Nipote da Michele, Zio da Michele.
Nápoles tem um quê de Brasil, sem dúvida.

Nápoles ao por do sol
Mas mesmo quem não curte muito essa bagunça, como eu, vai apaixonar-se por Nápoles assim que der a primeira garfada. Ali, é difícil comer mal mesmo nos lugares mais “suspeitos”: a cultura gastronômica é centenária, entranhada, cotidiana. Alimentar-se bem é hábito e utilizar ingredientes sazonais, frescos, comprados quase diariamente no mercado, é padrão.

ABSURDAS Babá au rhum da Pasticceria Sirica, em Nápoles
Em Nápoles aprende-se a importância de valorizar os pescadores que trazem, todos os dias, maravilhas do mar direto para o consumidor, sem atravessadores. Aprende-se que não é preciso pagar caro para fazer uma excelente refeição. Aprende-se que boa farinha e fermentação longa pode transformar o trigo (tão odiado atualmente, com o glúten sendo tratado feito o demônio) em sensacionais e aeradas pizzas, doces leves, massas saborosas.
Em breve você acompanhará nossa visita ao Moinho Caputo, entrevistas com os maiores mestres pizzaiolos e doceiros, entre outros vídeos, no meu novo canal do YouTube, o #PorTrásDaKG. Enquanto ele não estreia, aqui vai um pequeno guia para comer bem, muito bem, na bela Nápoles.
Pasticceria Sirica
A doceria napoletana é um capítulo belíssimo da gastronomia local. Tudo começa com farinha de boa qualidade, bom queijo e ovos (usados em diversos recheios), banha de porco (os folhados são todos feitos com ela e não com manteiga) e um confeiteiro de talento.
Na região metropolitana da cidade, longe do centro, fica o lugar mais sensacional para mergulhar na confeitaria regional: Pasticceria Sirica. Fundada e comandada pelo gentilíssimo Sabatino Sirica, que possui 50 anos de experiência no ofício, a pasticceria vale cada segundo de locomoção.

Zepolla: massa choux aeradíssima com creme de confeiteiro e amarena da Pasticceria Sirica, em Nápoles

Massa da sfogliatella aberta e coberta com banha de porco: depois de descansar uma noite é cortada em formato de concha e recheada
Vá com fome e prove o máximo possível de doces típicos produzidos artesanalmente e com resultados… maravilhosos. Não perca a Sfogliatella (massa folhada à mão recheada com ricota, sêmola, gemas, raspas de laranja), a babà au rhum (massa fofíssima mergulhada no rum e açúcar) e a Zepolla (massa choux coberta por creme de confeiteiro e amarena)
Leopoldo
Com várias unidades espalhadas pela cidade, e ar elegante, a Leopoldo vende bons doces como Babá, Pastiera di Grano, Sfogliatela e tortinhas. Se você tiver sorte de ir na época de fragollini di bosco, os moranguinhos selvagens, acabe-se de comer por que são deliciosos.
Gelateria Mennella
Sorveteria que não usa nenhum tipo de pasta industrial e produz todos os sabores desde o zero. Para quem é louco pelo estilo siciliano de tomar sorvete, como eu sou, é uma alegria: nada como colocar duas bolas de sorvete dentro de um brioche fofinho!
Pizzeria da Concettina ai Tre Santi
Em uma área meio perigosa da cidade – vá de táxi e chegue e saia de lá exatamente na frente da pizzaria, que é iluminada e segura -, a da Concenttina é um fenômeno, trazendo gente de todos os cantos e formando filas de espera de até duas horas. A razão disso é o talento do jovem pizzaiolo Ciro Oliva. Sugiro comer as pizzas fritas – tradicionais em Nápoles – com ricota cremosa e pancetta. De surtar de bom.
Se você quiser saber exatamente o que é a pizza napoletana, e todas suas peculiaridades, acesse AQUI o site da Associazone Verace Pizza Napoletana.
Pizzeria Salvo
As melhores pizzas que já comi na vida são servidas em uma das pizzarias de uma família com longa tradição no ofício, a Salvo. “De uma das” porque os proprietários, os irmãos Francesco e Salvatore Salvo, tem outro irmão que comanda A MAIS BADALADA pizzaria de Nápoles, a 50 Kaló, de Ciro Salvo (leia abaixo). Apesar de muito boa, a minha preferida continua sendo esta, a da dupla de fratelli.
Massa elástica na medida, saborosa, com borda areada, ingredientes de primeira. O cuidado com é tanto que usam 12 tipos de azeites – variedades de azeitonas distintas – para harmonizar perfeitamente com cada cobertura. A Salvo fica nos arredores de Nápoles e tem filas de espera constantes. A boa notícia é que abre para almoço e jantar e tem salão grande, para mais de 100 pessoas. Pegue um táxi e vá, mesmo.
Além das pizzas sensacionais, os tradicionalíssimos fritos são de perder a compostura. Originariamente comida dos pobres em tempos de escassez (reaproveitavam as sobras do almoço), os fritti são uma atração à parte. Na Salvo, peça o macarrão com queijo empanado e frito e o panzarotti, bolinho de massa de batata recheado com queijo.
50 Kaló di Ciro Salvo
Atual sensação de Nápoles, a 50 Kaló tem tanta fila, mas tanta fila, que a entrada parece a de uma balada e não a de uma pizzaria. São, em média, 3 horas de espera. Se vale? Olha, odeio esperar, mas é realmente uma experiência e tanto.

Da 50 Kaló: pizza bianca com alcachofras grelhadas, fior di latte e capocollo, embutido artesanal de pescoço de porco
O pizzaiolo Ciro Salvo é fera no preparo de massas delicadas, leves, de borda aeradas e levemente tostadas que sustentam coberturas preparadas com excelentes ingredientes com selos de origem, como a de Carbonara,
marinara com escarola, papaccelle e provolone, ricota e mortadella… Por cerca de 10 euros compra-se a felicidade.
Pizzeria & Trattoria al 22

Fresella – pão duro e seco consumido “umedecido” com tomate ou, no caso da foto, com azeite e limão – servido com polvo macio pacas, rúcula selvagem e azeitonas deliciosamente pouco salgadas e tenras da Sicília.
Sem vontade de gastar muito e nem sair do centro de Nápoles? Sua parada é esta. Comida rústica, saborosa, bem feita. Prove a Fresella – pão duro e seco consumido “umedecido” com tomate ou, no caso da foto, com azeite e limão – servido com polvo macio pacas, rúcula selvagem e azeitonas deliciosamente pouco salgadas e tenras da Sicília. O restaurante fica na região de uma das feiras de comida mais famosas e legais de Nápoles, a Pigna Secca.
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